Eu nunca quis ter um negócio. Queria ter um ateliê. A diferença demorou uns três anos para eu entender — e ainda hoje, quando alguém me chama de empreendedora, eu paro meio segundo antes de concordar. É um título que eu fui ganhando, não um que eu busquei.

Larguei a consultoria num sábado de junho de 2019. Não tinha plano. Tinha, literalmente, um caderno A5 com vinte e três páginas de esboço de peças que eu queria fazer e nenhuma ideia de como fazer. O primeiro forno foi um Olímpia semi-novo de Cotia, comprado num cartão de crédito que minha mãe me emprestou. Ela me disse uma frase que eu nunca vou esquecer: "filha, se isso aqui não der certo, a gente paga em vinte e quatro vezes."

Vendi doze peças no primeiro mês. Todas para vizinhos. Uma das compradoras chorou na frente da peça. Eu fui no banheiro chorar também.

Sobre quebrar oitocentas peças

Em 2022 eu comprei um lote de argila novo, de um fornecedor que tinha sido recomendado por uma outra ceramista. Eu não testei. Esse é o resumo da história. Eu não testei. Coloquei o lote inteiro de produção em cima da argila nova — porque o lote anterior já tinha vendido todo, e eu tinha vinte e duas lojas esperando reposição.

Cinco semanas depois, abri a primeira fornada. Estavam todas trincadas. Não dava para vender nem como segunda linha. Eu sentei no chão do ateliê e fiquei lá por uma hora. Quando levantei, contei: oitocentas e dezessete peças. Eu sei porque eu contei.

A pergunta óbvia é: como você se levanta de uma coisa dessas? Eu acho que a resposta honesta é: você não se levanta sozinha. A Marília, que era minha única funcionária na época, me ligou no domingo de manhã e disse "eu vou trabalhar de graça esse mês". Eu disse que não. Ela trabalhou de graça assim mesmo. Eu paguei seis meses depois, com juros, num jantar.

Sobre o WhatsApp

Até hoje eu atendo cliente pelo WhatsApp. Tem gente que acha estranho — a Tucum exporta para doze países, tem ateliê com onze pessoas, tem CFO part-time. E a fundadora ainda responde mensagem de quem comprou uma tigela. Eu acho que esse é o ponto.

O dia em que eu não souber mais por que a cliente comprou a peça, é o dia em que eu não vou mais saber qual peça fazer no próximo lote.

O que eu mudaria

Tudo. E nada. Eu mudaria o lote de argila ruim, óbvio. Mudaria ter dito sim para o primeiro investidor — ele queria 30%, eu dei 12%, e seis meses depois ele saiu. Mudaria ter contratado a Marília mais cedo. Não mudaria ter atendido a primeira cliente pelo WhatsApp.

Se você está começando agora, e está lendo isso achando que precisa ter resposta pra tudo: não precisa. Precisa ter resposta pra uma coisa só, que é por que você está fazendo isso. Tudo o que vier depois, vem. Inclusive as oitocentas peças quebradas.

A receita prática (porque sempre me pedem)

Eu não tenho receita. Tenho três coisas que eu falo para quem me pede ajuda:

Um: faça contas. Faça-as você mesma. Não terceirize antes de entender. Dois: conheça quem compra. Pessoalmente, se der. Três: nunca, jamais, em hipótese alguma, deixe de testar a argila.